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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Amizades coloridas vs Relacionamentos fúnebres, uma perspectiva Foucaltiana

Ocupando o meu vazio: A maturidade colorida e a resistência ao mofo social

Vivemos em uma era que se vende como fluida, mas que, sob a superfície, parece cada vez mais obcecada por cercas. Como professora, cientista e recentemente, estudante de psicologia, observo com curiosidade — e um toque de ironia — como as novas gerações, apesar de todo o aparato tecnológico e do discurso de "liberdade", parecem marchar de volta para um conservadorismo rígido. No meu blog, escolhi falar sobre o que muitos chamam de "solidão", mas que eu prefiro chamar de soberania.

Do Fúnebre ao Colorido

Na minha infância, ouvíamos muito a expressão "amizade colorida". Era algo leve, que trazia o lúdico para o centro do afeto. Hoje, aos meus olhos, o modelo tradicional de relacionamento monogâmico possessivo assumiu um caráter fúnebre. É fúnebre porque pressupõe a imobilidade: o desejo deve ser capturado, rotulado e enterrado em um contrato de exclusividade que, muitas vezes, serve apenas como um mecanismo de vigilância mútua — um verdadeiro panóptico afetivo.

Para mim, a felicidade de ser uma mulher de meia-idade sem filhos e sem marido não é uma falta, mas uma conquista de espaço. Enquanto a sociedade tenta projetar um "luto" sobre a minha trajetória, eu celebro a Pulsão de Vida (Eros). Minha felicidade reside em manter as cores vivas através de vínculos que preservam a alteridade. Prefiro o frescor de quem continua sendo um "estranho interessante" ao peso de quem se torna uma propriedade privada.

O Novo Conservadorismo e o Algoritmo do Medo

É fascinante notar que, enquanto gerações passadas lutaram para derrubar muros, os jovens de hoje parecem ansiosos por construir novas grades sob o rótulo de "responsabilidade afetiva" ou "autocuidado". Há um medo latente da angústia que a liberdade provoca.

Essa busca por segurança máxima encontra seu ápice na dependência das respostas prontas das Inteligências Artificiais. A IA é o novo oráculo de um mundo que não suporta o vazio. Se não sabemos como lidar com um conflito ou com o desejo, pedimos um prompt. Mas o desejo, por definição, não é processável. Ele é falho, imprevisível e exige que coloquemos o corpo em jogo. O conservadorismo atual e as IAs compartilham o mesmo objetivo: eliminar o estranhamento e entregar o "mesmo", o previsível, o seguro.

A Estética de uma Existência sem Gabarito

Como professora, vejo alunos buscando o "gabarito da vida". Mas o gabarito é estático; ele encerra a questão. Minha vida hoje é um rascunho constante, pintado com as cores das amizades que não me prendem, mas me iluminam.

Não ter marido ou filhos me permitiu investir na minha própria estética da existência. Meu tempo é meu, minha pesquisa é minha e meus afetos são escolhidos pela alegria que produzem, não pela segurança que prometem.

A verdadeira subversão hoje não está em se adequar a novos rótulos progressistas que, no fundo, escondem velhas práticas de posse. A subversão está em sustentar uma vida sem garantias contratuais, sem o aval de algoritmos e sem a necessidade de preencher expectativas alheias.

"Minha vida não é um vazio à espera de preenchimento; é um espaço plenamente ocupado por mim mesma. E, para quem vê apenas solidão, deixo o convite: troque o mofo das certezas pela cor da incerteza. É nela que a vida realmente acontece."

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