A Culpabilização e a Competitividade: Como a Exclusão é Fabricada
Reflexões sobre o artigo de Pedrinho A. Guareschi, que desvenda os pressupostos psicossociais por trás da desigualdade na sociedade contemporânea.
1. A Exclusão: Mais do que Exploração
O sociólogo e psicólogo social Pedrinho A. Guareschi, em seu artigo, rompe com a visão clássica de que as relações sociais são definidas apenas pela **dominação e exploração**. Ele argumenta que, na sociedade da alta tecnologia e automação, a relação central se torna a **Exclusão**.
Com o avanço da tecnologia, vastos contingentes populacionais são simplesmente dispensados e se tornam desnecessários ao sistema produtivo. O problema não é apenas a exploração do trabalhador, mas a sua **dispensa** do processo social e econômico. O sistema se estrutura de modo a impossibilitar, por princípio, o acesso de muitos ao mundo do trabalho.
2. As Artimanhas Psicossociais: A Legitimação da Injustiça
Para que essa relação injusta se mantenha sem grandes conflitos sociais, é preciso uma legitimação ideológica. Guareschi destaca dois mecanismos psicossociais que atuam como "artimanhas" para que o excluído aceite (e até se sinta culpado por) sua própria condição:
A. A Competitividade como Dogma
- A Exclusão como Necessidade: A ideologia neoliberal afirma que o progresso é impulsionado pela competitividade. No entanto, o autor denuncia que a competitividade exige a exclusão. Para que haja vencedores, é preciso que haja perdedores, legitimando a desigualdade como um "resultado natural" do esforço individual.
- Guerra Contra o Humano: O indivíduo é constantemente forçado a lutar contra o outro, numa competição que fragmenta as relações humanas e impede a solidariedade.
B. A Estratégia da Culpabilização
- Individualização do Fracasso: Este é o mecanismo mais sutil. A ideologia atribui o sucesso e o fracasso exclusivamente a fatores individuais, ignorando as causas estruturais (sociais, políticas e econômicas).
- O Bode Expiatório: O desempregado, o pobre, o excluído é levado a sentir-se culpado pela sua própria condição. Se ele "não se esforçou o suficiente" ou "não competiu adequadamente", o problema é dele, e não do sistema que o tornou desnecessário.
- Liberdade Cínica: Proclama-se a "liberdade" individual (qualidade espiritual) ao mesmo tempo que se retiram os meios materiais para que essa liberdade seja real.
3. Epistemicídio: A Exclusão dos Saberes
O artigo também toca na questão do **Epistemicídio** (a eliminação de formas de conhecimento). O menosprezo e a desqualificação dos saberes populares, do senso comum e dos conhecimentos gerados por práticas sociais alternativas (como as de movimentos sociais) é uma forma de exclusão. Deslegitimar o saber de um grupo é uma tática para deslegitimar as práticas sociais e a própria existência desse grupo, o que contribui diretamente para a exclusão social e a manutenção do *status quo*.
Conclusão: A análise de Guareschi é um chamado à reflexão ética e política. É urgente desvendar as artimanhas que sustentam a desigualdade para que possamos construir uma sociedade pluralista e verdadeiramente democrática, onde a autonomia e a solidariedade prevaleçam sobre o cinismo da competição e da culpabilização.
Referência para Aprofundamento
GUARESCHI, Pedrinho A. Pressupostos psicossociais da exclusão: competitividade e culpabilização. In: SAWAIA, Bader (Org.). As Artimanhas da Exclusão: Análise psicossocial e ética da desigualdade social. Petrópolis, RJ: Vozes, [Data não especificada - Cap. 9].
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