Resenha: "Racismo contra negros: um estudo sobre o preconceito sutil" (2010)
A tese de Sylvia da Silveira Nunes e a nova face do racismo: a sutileza que mantém a desigualdade social no Brasil.
1. A Tese Central: A Ascensão do Preconceito Sutil
A pesquisa de doutorado de Sylvia da Silveira Nunes, orientada por José Leon Crochík, propõe-se a desvendar a fisionomia contemporânea do racismo: o preconceito sutil. A autora argumenta que, embora o racismo flagrante (explícito) possa ter diminuído em frequência, ele foi substituído por formas mais camufladas e socialmente aceitáveis de discriminação.
Com base no referencial da Teoria Crítica (Adorno e Horkheimer), a tese entende o preconceito não como um erro individual isolado, mas como um fenômeno profundamente enraizado na cultura e na ideologia, que serve para manter a estratificação e a desigualdade social. A própria autora relata a motivação pessoal para o estudo, ao ter vivido as contradições da mestiçagem e do racismo desde a infância.
2. Resultados Chave da Pesquisa Comparativa
Utilizando as escalas de preconceito de Pettigrew e Meertens (que distinguem o preconceito flagrante do sutil) e entrevistas aprofundadas, a pesquisa comparou a manifestação do racismo no Brasil (contra negros) e na Espanha (contra *Gitanos*).
Quadro I: O Domínio da Sutilidade
- Prevalência: Houve maior expressão de preconceito sutil do que de preconceito flagrante nas amostras dos dois países. O racismo sutil é a forma preferida de manifestação.
- Gênero: Os homens se mostraram mais preconceituosos do que as mulheres em ambos os contextos.
- Negação da Mestiçagem: Cerca de 75% da amostra brasileira se identificou como branca. Este resultado é crucial, pois aponta para a internalização de um ideal de branquitude e a negação da identidade mestiça/negra, um mecanismo de ascensão social simbólica.
3. O Mecanismo da Negação e Culpabilização
As entrevistas aprofundadas revelaram como a ideologia atua no cotidiano, mascarando o racismo:
- "Brincadeiras Racistas": O racismo se manifesta sob o disfarce de humor e "piadinhas", onde a agressão é transferida para o âmbito do riso, dificultando o enfrentamento ético.
- Culpabilização da Vítima: Há uma forte tendência a negar a responsabilidade social pelo racismo e responsabilizar o próprio indivíduo negro pela sua situação de desigualdade. Isso leva à rejeição de políticas afirmativas, como as cotas.
- Pseudoneutralidade: A dificuldade de nomear o racismo leva a discursos de "não vejo cor" ou a uma falsa neutralidade que, na prática, beneficia a manutenção do status quo racista
4. O Caminho para a Superação: Assumir o Preconceito
A autora conclui que o passo mais difícil e crucial para o enfrentamento do racismo é a admissão do próprio preconceito. O discurso de negação e a acusação de que "o racista é o outro" impedem a reflexão.
A coragem em reconhecer e admitir os próprios sentimentos e atitudes racistas (como fizeram alguns participantes da pesquisa) é o primeiro passo para a mudança individual. A tarefa, contudo, é social: a sociedade precisa criar condições para que essa admissão seja possível, sem que o indivíduo seja imediatamente condenado, mas sim levado à reflexão e à transformação.
Questões para o Debate
- A identificação com a "branquitude" (negação da própria cor) é um mecanismo de defesa ou uma estratégia de ascensão social?
- Se o preconceito sutil é o dominante, como as políticas públicas (educacionais e de justiça) devem se adaptar para combatê-lo, em vez de focar apenas no racismo flagrante?
- Como podemos criar um espaço seguro para que as pessoas "tenham a coragem de encarar o racismo" em si mesmas, como sugere a tese?
Referência Completa da Tese
NUNES, Sylvia da Silveira. Racismo contra negros: um estudo sobre o preconceito sutil. Tese (Doutorado em Psicologia) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
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