Preconceito e ProUnistas: Por que a Universidade ainda diz "Seu Lugar Não é Aqui"?
Uma revisão do artigo de Flávia de Mendonça Ribeiro e Raquel Souza Lobo Guzzo sobre a experiência dos estudantes bolsistas no Ensino Superior privado.
1. O Paradoxo do ProUni: Acesso que Revela a Desigualdade
O Programa Universidade Para Todos (ProUni) foi criado com o nobre intuito de garantir o acesso ao Ensino Superior para as camadas mais pobres da sociedade brasileira, buscando a ascensão social e reparando uma ausência histórica da classe trabalhadora nas instituições de ensino mais qualificadas.
No entanto, o artigo de Ribeiro e Guzzo apresenta uma tese forte e crítica: ao mesmo tempo que o ProUni facilita o acesso, ele acaba por revelar as desigualdades sociais que estavam antes veladas, manifestas pelo preconceito nas vivências universitárias. A entrada de estudantes de baixa renda em um ambiente historicamente elitizado (as Instituições de Ensino Superior - IES - privadas) acirra o conflito de classes dentro da própria universidade.
Quadro Informativo I: A Tese da Contradição
ProUni como Reparador Histórico:
- Busca reparar a ausência histórica da classe trabalhadora no Ensino Superior brasileiro.
- Utiliza a meritocracia como critério de acesso, mas o acesso, segundo a Constituição Federal, deveria ser um direito.
ProUni como Revelador de Preconceito:
- A inserção dos bolsistas no ambiente universitário leva a situações preconceituosas.
- O preconceito, muitas vezes velado, prejudica o cotidiano dos estudantes e gera sofrimento psíquico.
2. O Preconceito "Velado" e a Desqualificação Sistemática
O preconceito, conforme definido pelas autoras, é a "desqualificação sistemática ou pontual, feita de forma coletiva ou individual, contra um grupo de pessoas ou indivíduo, historicamente denominado como inferior". Essa atitude, mantida por estereótipos e pela ideologia capitalista, é propagada por atitudes que são, na maioria das vezes, manifestadas de forma camuflada ou sutil.
Apesar de o preconceito existir na sociedade e nas IES privadas, o estudo buscou dimensionar como ele influencia a vivência do estudante durante a graduação. A conclusão é que o preconceito vivenciado ainda é bastante velado. Isso significa que ele nem sempre é um ataque direto, mas se manifesta na falta de pertencimento, na dificuldade de adaptação e na percepção de que "Seu lugar não é aqui".
3. A Psicologia Crítica como Aliada no Enfrentamento
Diante desse cenário de sofrimento psíquico intensificado pelo preconceito, as autoras defendem a necessidade de um trabalho profundo da Psicologia no Ensino Superior.
A Psicologia Crítica, em especial, propõe uma ruptura ético-política, questionando a Psicologia dominante que muitas vezes foca em soluções individuais e subjetivas para problemas que são, na verdade, políticos e sociais. Seu objetivo é auxiliar a IES na integração e auxiliar os estudantes no enfrentamento do preconceito, fortalecendo sua participação crítica e política na sociedade.
Quadro Informativo II: Impacto do Preconceito e Ações Sugeridas
- Dano ao Cotidiano: O preconceito vivenciado, mesmo velado, prejudica o dia a dia dos estudantes e é uma fonte de sofrimento psíquico.
- Necessidade de Suporte: Muitos estudantes de baixa renda tiveram que lidar sozinhos com o preconceito. O lugar que deveria fortalecer tornou-se um gerador de sofrimento.
- Papel da Psicologia: É necessário um trabalho profundo para auxiliar as IES na integração desses estudantes na comunidade universitária.
- Foco da Psicologia Crítica: Fortalecer o estudante para sua participação política e crítica, além de auxiliar no enfrentamento das vivências preconceituosas.
Referência Completa
RIBEIRO, Flávia de Mendonça; GUZZO, Raquel Souza Lobo. Preconceito e prounistas: “seu lugar não é aqui”. Psicologia da Educação, São Paulo, n. 53, p. 13-24, 2º sem. 2021. DOI: 10.23925/2175-3520.2021153p13-24.
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